Experiência e Esquema Conceitual em Strawson

Cristina de Moraes Nunes

Em The Bounds of Sense, Strawson apresenta o que considera como a grande contribuição kantiana para a filosofia analítica. Essa contribuição corresponde à tentativa de Kant em estabelecer os limites gerais possíveis para a experiência e, consequentemente, limitar também o uso que fazemos dos conceitos. De acordo com o princípio da significatividade, os limites da experiência são os limites para o uso significativo dos conceitos. Nos Individuals, Strawson desenvolve o projeto metafísico e leva em consideração muitos dos aspectos positivos encontrados na teoria de Kant, como é o caso do princípio empirista da significatividade. Neste projeto metafísico, Strawson tem o interesse de elucidar o nosso pensamento sobre o mundo, o que se torna possível pelo uso de um esquema conceitual único. No esquema conceitual, os conceitos encontram-se interligados entre si e são esses conceitos que nos possibilitam ter acesso às coisas no mundo. Na sua ontologia, uma condição necessária para a manutenção do esquema conceitual é a aceitação incontestável da existência contínua de alguns objetos. Com isso, Strawson depara-se com o cético que põe em dúvida a existência contínua dos corpos materiais. O argumento transcendental utilizado nos Individuals, para mostrar que a dúvida cética é incoerente, recebeu críticas tais como a de Barry Stroud. Para Stroud, o argumento transcendental implica certo verificacionismo para afirmar a existência contínua dos particulares, mas aceitar o verificacionismo já é refutar  diretamente o cético, de modo que o argumento transcendental torna-se insuficiente para refutar o ceticismo. Em Ceticismo e Naturalismo, Strawson aceita a crítica de Stroud e encontra, no naturalismo, uma maneira de não refutar o cético, mas simplesmente deixá-lo de lado, já que é natural crer na existência dos corpos materiais e das pessoas. Ao adotar o naturalismo, Strawson aproxima-se ainda mais dos realistas. Ele considera que podemos conhecer as coisas diretamente como elas realmente são. Isso torna-se possível porque a nossa percepção sensível é sempre permeada por conceitos, de modo que o nosso conhecimento sensível é sempre conceitual. Os conceitos são apreendidos na sua prática de uso, através da observação do comportamento dos demais usuários. Desse modo, ao se aproximar de Wittgenstein, Strawson dá um passo a frente de Kant e afirma que os conceitos limitam aquilo que podemos conhecer. Assim, os traços fundamentais para uma concepção coerente de experiência são agência e sociedade, sendo que os limites para o nosso conhecimento são sempre estabelecidos pela linguagem. 

 

Nº de pág.: 137

ISBN: 978-65-5917-170-5

DOI: 10.22350/9786559171705