Cadernos de notas e ensino de filosofia: a escrita da experiência como resistência às dinâmicas político-educacionais neoliberais brasileiras

Arlison Frank Lisboa Alves

Em uma perspectiva, o que acompanhamos com a leitura do livro é o processo de descoberta de um pesquisador em relação ao seu trabalho como professor, fundindo-se ambas as figuras – pesquisador e professor –, ao longo da obra, a partir da constituição de um saber de experiência. Do início ao fim, lemos notas que registram, rememoram, comentam o que se passa ou se passou em sala de aula ou qualquer outro espaço escolar, acompanhadas de observações que vão tecendo uma compreensão sobre a escola brasileira e seus dilemas – frente às intercorrências do dia a dia e a interposições curriculares, normativas, oficiais, cujos enunciados e vocábulos nem sempre estão claros e são muitas vezes objeto de incômodo. Ou seja, sob certa perspectiva, vemos o desenvolvimento de um processo de compreensão que até nos faz pensar em um romance de formação – ou de aprendizado – pelo desvelamento gradual de uma narração de autodescoberta em que o personagem – professor-pesquisador, neste caso – vai se dando conta da teia ideológica que o prende, silencia e incomoda, assim como da potência de práticas tidas até então como menores e ineficazes – tendo em vista a ressignificação de termos como “eficácia” ou “competência”, por exemplo, ao longo da escrita. Mas o que acompanhamos, por outra perspectiva, não é algo restrito a um processo pessoal, com abrangência local, cujo proveito estaria na curiosidade que poderia despertar, fazendo-nos cúmplices indiretamente interessados em tais aventuras e desventuras. O que se apresenta na obra é um processo que nos interessa diretamente, a nós leitoras(es) implicadas(os) nos dilemas da educação, em termos gerais, e da disciplina de Filosofia, em temos mais particulares. Somos envolvidas(os) diretamente na narrativa que não é nada fictícia e nos coloca no centro da problemática tratada no livro, convocando-nos a pensar a nossa prática, os nossos discursos, as nossas posições neste contexto em que a educação é cada vez mais tida (ou assumida) por alguns setores como mercadoria.

Nº de pág.: 190

ISBN: 978-65-5917-222-1

DOI: 10.22350/9786559172221